Todo pregador que prega sistematicamente através dos livros da Bíblia vai inevitavelmente chegar a um texto que preferia pular. Às vezes é a ordem de extermínio dos cananeus no livro de Josué. Outras vezes, as instruções paulinas sobre os papéis na família ou na igreja, que a cultura contemporânea rejeita com veemência. Ou a doutrina do juízo eterno, que desconforta até os crentes mais convictos. Ou os textos sobre predestinação e eleição, que levantam perguntas filosóficas que não têm respostas fáceis.
Nesses momentos, o pregador enfrenta uma tentação real: desviar. Mudar a passagem da série. Suavizar o texto a ponto de neutralizá-lo. Passar pelo assunto com rapidez suficiente para não despertar reações. Ou, inversamente, usar o texto como plataforma para proclamações inflamadas que refletem mais indignação pessoal do que fidelidade pastoral.
Nenhum desses caminhos serve ao povo de Deus. O pastor fiel prega textos difíceis — e os prega bem.
Por que textos difíceis precisam ser pregados
Existe uma razão teológica profunda para não evitar as passagens desconfortáveis da Escritura: a Bíblia foi dada por Deus para a formação do povo de Deus, e essa formação frequentemente acontece precisamente onde o texto nos confronta mais duramente.
Paulo diz a Timóteo que "toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a instrução na justiça" (2 Timóteo 3.16). "Toda Escritura" — não apenas os textos confortáveis, não apenas os versículos de promise, não apenas as narrativas edificantes. Toda ela.
Além disso, a congregação que nunca ouve o pastor abordar as passagens difíceis aprende uma lição não intencional: a Bíblia tem partes que os líderes preferem não discutir. Isso gera ou ingenuidade (membros que nunca encontram essas passagens) ou desconfiança (membros que as encontram e percebem que o pastor as evitou).
Cinco categorias de textos difíceis e como abordá-las
1. Textos sobre violência divina
O extermínio dos cananeus, a destruição de Sodoma e Gomorra, as pragas sobre o Egito, o massacre dos servos de Baal por Elias — esses textos levantam questões genuínas sobre a justiça e o caráter de Deus.
O caminho fiel começa com honestidade: não fingir que a questão não existe. Reconhecer diante da congregação que este é um texto com o qual a fé cristã precisa lidar genuinamente. Isso não é fraqueza — é integridade.
Em seguida, trabalhe o contexto teológico: a soberania de Deus sobre a vida e a morte, o pecado que acumula juízo ao longo de gerações, a paciência divina que antecede o julgamento, e o caráter de Deus como juiz justo — não como um ser arbitrário caprichoso. Finalize conectando ao evangelho: o juízo que recai sobre os cananeus no Antigo Testamento é o mesmo juízo que recaiu sobre Cristo na cruz em lugar de quem crê — o que torna o evangelho uma notícia extraordinariamente boa.
2. Textos sobre sexualidade e gênero
Estes são os textos mais culturalmente carregados da atualidade. A pressão sobre o pregador é real, vinda de múltiplas direções: de membros progressistas que querem que ele os ignore ou reinterprete, e de membros conservadores que querem que ele os use como munição cultural.
O caminho fiel não serve a nenhum desses impulsos. Ele começa com exegese cuidadosa — o que o texto realmente diz, no contexto original em que foi escrito, para quem foi escrito, e por quê. Segue com hermenêutica responsável — como os princípios revelados neste texto se aplicam hoje. E culmina com aplicação que é simultaneamente fiel à Escritura e compassiva com as pessoas — porque o objetivo da pregação não é ganhar debates culturais, mas guiar pessoas em direção à vida que Deus chama à existência.
3. Textos sobre juízo eterno e inferno
A doutrina do juízo eterno é uma das mais difíceis de pregar com equilíbrio. De um lado, há a tentação de suavizá-la a ponto de não dizer nada de substancial — evitar "chocar" as pessoas. Do outro, há a tentação de usá-la de forma ameaçadora e desumana.
A pregação fiel sobre o juízo começa com a grandeza e a santidade de Deus — que é o contexto sem o qual o juízo parece arbitrário. Prossegue com a seriedade do pecado humano — que fundamenta a justiça do juízo. E sempre termina com o evangelho — o caminho provido por Deus para escapar de um juízo que os seres humanos mereciam. Pregar sobre o inferno sem pregar sobre a cruz não é apenas teologicamente incompleto — é pastoral e emocionalmente cruel.
4. Textos sobre predestinação e eleição
Romanos 9, Efésios 1, João 6 — esses textos levantam questões sobre a liberdade humana e a soberania divina que dividem tradições cristãs há séculos. Como pregar esses textos sem transformar o sermão em um debate calvinismo-arminianismo, e sem silenciar o que o texto genuinamente afirma?
A chave está em deixar que o texto diga o que ele diz, na ordem em que ele diz, com o propósito com que o autor o escreveu. O propósito de Paulo em Romanos 9 não é resolver um problema filosófico sobre livre-arbítrio — é estabelecer a fidelidade soberana de Deus à sua Palavra. Pregas aquele propósito, respeitando as tensões que o texto mantém em tensão sem resolver artificialmente.
5. Textos sobre papéis na família e na igreja
As instruções paulinas sobre o relacionamento entre homens e mulheres na família e na church são alguns dos textos mais debatidos do Novo Testamento. Há posições sérias e fundamentadas em diferentes pontos desse espectro, e o pregador precisa ter honestidade intelectual para reconhecer isso — mesmo enquanto prega com convicção o que ele crê ser a interpretação mais fiel.
O que não serve ao povo é nem a evasão desses textos nem a proclamação de uma posição como se ela não tivesse nenhuma dificuldade. A congregação é honrada quando o pregador demonstra que leu os argumentos seriamente, que entende as preocupações legítimas dos que discordam, e ainda assim prega com convicção o que o texto, no seu melhor entendimento, está dizendo.
Princípios que atravessam todas as categorias
Independentemente do tipo de texto difícil, alguns princípios gerais orientam a abordagem:
Nomeie a dificuldade. Não finja que o texto é simples quando não é. A congregação já sabe que é difícil — e o pastor que age como se não fosse perde credibilidade.
Faça o trabalho exegético. Textos difíceis exigem mais pesquisa, não menos. O atalho aqui tem custo alto.
Mantenha o evangelho no centro. Todo texto difícil tem uma conexão com o evangelho — com a graça de Deus que oferece misericórdia onde o juízo seria justificado. Essa conexão não elimina a dificuldade, mas a enquadra na narrativa maior da redenção.
Pregue para transformação, não para debate. O objetivo não é vencer um argumento — é servir ao crescimento e à formação do povo que você ama.
Conclusão
O pastor que evita textos difíceis não está sendo gentil com a congregação — está sendo desonesto. Ele está sinalizando que a Bíblia tem partes que precisam ser escondidas, e isso forma crentes instáveis que não sabem o que fazer quando encontram essas passagens sozinhos.
A coragem pastoral de pregar textos difíceis com fidelidade e compaixão é um dos presentes mais valiosos que um pastor pode dar ao seu povo. É a diferença entre uma congregação fragilizada por uma fé nunca testada e uma congregação robusta que sabe que sua fé sobrevive ao contato com a realidade mais dura da Escritura.